domingo, 7 de fevereiro de 2010

If you worry, you die. If you don't worry, you die. So, why worry?


Vim a pé para casa, perante a estupefacção telefónica do meu pai, que estranha o meu gosto por caminhar em dias cinzentos e chuvosos como o de hoje. Vivi uma guerra colonial, longínqua demais ao meu nascimento e permiti a entrada de uma melancolia de linhas que não são minhas. Senti a dor lancinante de cotos amputados e apertei nas mãos uma dor palpável, num pós-guerra apático e impossível de compreender, estando rodeada de amores demasiadamente humanos para me satisfazerem. Estive acompanhada de uma solidão ingrata que me sussurrou blasfémias ao ouvido e me fez abandonar um cinzeiro sujo de uma procrastinação contida e um copo de água derramado na madeira nodosa da mesa de café. Vim a pé, de cabelo encarrapitado, insensível à beleza discreta que me dizem ter, deixando que a chuva miudinha me beijasse os ilíacos bamboleantes e comparei-me aos prédios devolutos, emparedada por uma Dona Insatisfação que não reconheço mas que aparentemente se instalou de malas e bagagens no exíguo espaço de uma alma em contrição por tempo demais. Nem a maquilhagem parcimoniosa me permitiu esconder a indiferença às banalidades mundanas que diariamente me cativam, traçando um sorriso discreto. Nunca, em todo o trajecto, saboreie o calor do lar e descobri que talvez, tempo demais aqui, me molde a uma frieza pouco genética. Atravessei um jardim que não é meu (nem nunca será nosso) e franzi o sobrolho ao nevoeiro vaporoso que se tinha instalado, num misto de intriga e choro celeste. Sorri, destas lágrimas que não são minhas, orgulhosa das minhas comportas fechadas em jeito de auto-preservação. Passei à Tua porta e em jeito de Amor contido, entrei. Fiz-me pequenina, num entrelaçar de dedos desesperados e olhei à minha volta, vazia de compreensão. Como canta o Rui, hoje estou que não me entendo.

2 comentários:

Maria Inês disse...

O amor tem mais de mil caras, não tem?

Margarida disse...

vazia de compreensão. é mesmo isso.