sábado, 10 de outubro de 2009

Liberdade abaixo.


Eu descia a avenida com um propósito claro, sentindo o vento de Outono que já se sentia por entre os raios tímidos de sol. Como sempre ia viajando em tudo o que me prendia os sentidos e ao mesmo tempo atentava nas pedras tão diferentes da calçada. A meio tive um baque. Quase como uma dor no peito que me impediu de respirar por segundos. Discretamente inclinei-me e tentei recuperar o fôlego. Pouco depois, num intuito de me distrair, olhei à minha volta. E então percebi. Ainda agora não entendo como fui tão burra em escolher aquele caminho, havendo tantos que me levariam ao meu destino, tão bem delineado e claro. Ali, junto ao banco onde os pombos descansavam, doeste-me no centro do coração, numa das muitas cavidades que possui. Tudo voltou a mim, como se se tivesse passado há poucos minutos. Eu e tu ali. As mãos dadas, o beijo no canto dos lábios e o Precisamos de falar. Engraçada esta expressão, porque lembro-me perfeitamente de não ter aberto a boca para emitir qualquer som. Com um discurso estudado (não digas que não) explicaste-me o amor que se tinha perdido pelo caminho, o afecto que nutrias por mim e a existência de outros que te abriram novas perspectivas. Mas já não dava mais. Tinhas excedido o plafond de paciência comigo. Tinhas-te vergado sem que eu me desse conta e agora não te revias em nós, como noutros tempos. Deixei-te ir, sem lágrimas. Sei que estranhaste isso mas não saberia chorar ao pé de ti, sabendo que não me abraçarias e tornarias tudo melhor. Chorei depois, naquele banco, copiosamente, e nos dias que se seguiram. Chorei-te e levei-nos, aos poucos, para a arrecadação dos corações perdidos. E hoje.. Hoje doeste-me mesmo no centro do peito e descobri-te lá, abrindo baús que julgava há muito trancados, empoeirados num canto da alma.

6 comentários:

Nuno, apenas Nuno. disse...

Continuas a encantar Ana. :)

Qel disse...

«Sei que estranhaste isso mas não saberia chorar ao pé de ti, sabendo que não me abraçarias e tornarias tudo melhor. Chorei depois, naquele banco, copiosamente, e nos dias que se seguiram. Chorei-te e levei-nos, aos poucos, para a arrecadação dos corações perdidos».
Acho que todas nós temos um pouco esta mania, a de não querer chorar em frente de quem nos oferece as lágrimas de mão beijada. Não gostamos de deixar o orgulho de parte e de mostrar a outra, a 'parte fraca'. Mas às vezes um último abraço bem que sabia bem, um beijo de despedida, embora envolto em compaixão e comiseração, talvez fosse o necessário. Ou talvez fosse pior e nos fizesse abrir só mais uns baús e infectar feridas acabadas de abrir..
Seja de uma maneira ou de outra, eu percebi-te neste e tenho a confessar-te que gostei. Gostei muito. *

Nuno, apenas Nuno. disse...

Vem... Mas eu adaptei :P *

Marie. disse...

Sim, claro.
eu tambem gostei. muito.

Adriana Pinto disse...

Malditos desamores que são como facas que nos espetam no peito cada vez que nos saltam à memória,

EspíritoDaLua( disse...

Encontro-me em cada palavra.
Brutal!

Um beijinho Ana* :)