quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Apetite de cores!


O som da esferográfica que arranha o papel tranquiliza-me. Tenho saudades de escrever a lápis. O cheiro do carvão, cravado na brancura da folha virgem, esperando por mim e pelo que me atormenta. Coisas boas e coisas más. O que me atormenta não é necessariamente mau. Tenho saudades do barulho do afia a bater na mesa, do gesto repetitivo, de soprar as aparas e o carvão que me ficavam no colo e nos dedos. Naquela altura a sala de aula era um sítio seguro, um refúgio. Como que a certeza de encontrar gente que gosta de nós, que sorri conosco. Certezas que tornam os dias mais fáceis. Viviamos (vivemos?) num universo paralelo, um mundo nosso, onde o maior dos problemas era o pão que caía no chão ou os joelhos doridos. Hoje já não são os joelhos que doem. Dói em sítios escondidos e soluçamos como se tivessemos raspado os cotovelos no alcatrão. Nunca te aconteceu? Dói de verdade, como se queimasse.
O bom de tudo isto é que, antigamente, faziamos um desenho para esquecer o choro e tudo ficava bem. Hoje temos as cores nas pontas dos dedos e pintamos mundos desconhecidos a lápis de cera.

2 comentários:

Joana Almeida disse...

É tão bom ler-te! Escreves tão bem as cores da infância que parece que estive lá contigo...

Devia ter-te conhecido há mais tmp...

Anónimo disse...

É tão bom ler-te! Escreves tão bem as cores da infância que parece que estive lá contigo...



Devia ter-te conhecido há mais tmp...