sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Lisboa dos meus amores.

O autocarro tem pulsação, como nós. Sinto-a quando encosto a cabeça ao vidro e vejo Lisboa anoitecer, a caminho de casa. Perco-me no céu limitado entre prédios e quero ser maior, como eles. Há um calor atípico no ar e o rapaz que se senta ao meu lado traz uma nuvem, que me lembra o perfume do pai. Sorrio, sem querer e sem pensar. E deixo que Lisboa me aconchegue neste tranquilo fim de dia ainda em alvoroço. Desvio o olhar da vidraça e vejo o olhar reprovador de uma senhora. Talvez seja a argola (é sempre a argola). Volto a sorrir, pela simplicidade da situação. Nada sei dela e ela, nada de mim, e mesmo assim adivinho-lhe os pensamentos enquanto este bicho amarelo nos leva até casa. Lisboa já tem luzes, mais mil luzes do que o normal, e nem assim sinto o Natal dentro de mim. Esfrego o olho com os nós dos dedos (tique de criança) e oiço as queixas do meu pulso, muito provavelmente ainda aberto. Penso nas saudades que tenho, de como me fazes falta. Das gargalhadas que encontram outros caminhos, como as muitas estradas que nos levam até ao canto da alma alentejana onde nos aninhamos. Ainda há coisas que me surpreendem, sabes? Como no outro dia, em que vos vi conversar, boquiaberta com tamanha transparência. Há gente tão bonita, caramba. E vocês não sabem que o são e custa-me que não o saibam. Será que não o digo vezes suficientes? Como Lisboa. Às vezes acho que Lisboa também não sabe o quão bonita é. Pelo menos para mim, que a percorro de nariz gelado pelo frio de Dezembro, mãos nos bolsos e sorriso-sem-querer.

6 comentários:

susana disse...

divinal :)

Margarida disse...

somos tão Lisboa-sem-querer

P! disse...

lisboa tem-me o sabor e eu o sabor dela :)

Anónimo disse...

A tua escrita começa verdadeiramente a penetrar-me. Não pares!
a) flordocardo

Teresa Vilela disse...

Saudades. Tuas, e d'A cidade

Margarida disse...

há tantos jardins bonitos, cheios de flores e borboletas. e ficam tão bem todos juntos :)