domingo, 5 de setembro de 2010


Amar-te nunca foi difícil. Resistir-te, isso sim, foi uma tarefa complicada. Amar-te não. Nem quando vinhas com demasiada bagagem que remexíamos com cuidado. Tinhas a mala aberta, no chão do quarto, e éramos duas crianças encantadas com as maravilhas que de lá saiam. Eu sabia mais de ti e tu lias mais de mim, no meu ar de espanto e olhos lacrimejantes. Havia tesouros que de teus passaram a nossos e houve mundos que se criaram, ali, naquele quarto transbordante de cores e cheiro de infância. Muitas vezes quis que me contasses a tua história e demasiadas vezes tive que adivinhá-la no teu semblante fechado. A proximidade das almofadas, em jeito de submissão, denunciavam o quanto nos queríamos e tu ali, tão próximo, a dois dedos de mim, era mais do que alguma vez pedira. Gabavas-me os lábios que palminhavas com os teus e sentia na pele como os nossos cheiros se misturavam, num perfume delicado, impossível de reter. Foste o meu melhor amor e um dia, quando as crianças me pedirem histórias felizes, é de ti que falarei. De ti e do teu olhar rasgado, de peixes verde-mar, de como contigo era sempre Verão, mesmo quando a chuva quebrava contra o vidro da janela fechada. E elas compreenderão que a saudade é um doce caminhar, quando se escolher o Amor como caminho.

5 comentários:

Margarida C' disse...

" Foste o meu melhor amor e um dia, quando as crianças me pedirem histórias felizes, é de ti que falarei. De ti e do teu olhar rasgado, verde-mar, de como contigo era sempre Verão, mesmo quando a chuva quebrava contra o vidro da janela fechada. E elas compreenderão que a saudade é um doce caminhar, quando se escolher o Amor como caminho."
Adorei :)
Beijinho

Maria disse...

"Amar-te nunca foi difícil. Resistir-te, isso sim, foi uma tarefa complicada.", sublinho.

Qel disse...

«Muitas vezes quis que me contasses a tua história e demasiadas vezes tive que adivinhá-la no teu semblante fechado. A proximidade das almofadas, em jeito de submissão, denunciavam o quanto nos queríamos e tu ali, tão próximo, a dois dedos de mim, era mais do que alguma vez pedira».

esta sensação de dádiva é uma das melhores de sempre, daquelas que nos faz levitar e ficar profundamente gratas. Adorei toda a ternura. *

Teresa Vilela disse...

"a saudade é um doce caminhar, quando se escolher o Amor como caminho"

nem mais*

Inês disse...

"Foste o meu melhor amor e um dia, quando as crianças me pedirem histórias felizes, é de ti que falarei. (...) E elas compreenderão que a saudade é um doce caminhar, quando se escolher o Amor como caminho."
Tocou-me, todo o texto, está lindo *