sábado, 21 de agosto de 2010

Verde esperança.

As casas, salpicadas de um azul céu numa brancura imaculada, confundem-se com o tom ocre da planície. No calor modorrento de umas três da tarde preguiçosas, ela dorme. O corpo largado na cama transparece cansaço e os braços abertos lembram um Cristo na cruz. As pernas formam um quatro desalinhado e o cabelo espalha-se na brancura pontilhada dos lençóis, como ondas que vêem e vão. Num cansaço sereno observa como o peito lhe sobe e desce, na calma respiração de quem dorme o sono dos justos. Pensa como é impossível não desejá-la, tão doce na sua morenice menina, e esconde apressadamente as mãos nos bolsos para não cair em tentação. Quer tocar-lhe, descansar o corpo e alma em chamas que traz no peito ao lado daquele corpo que tomaria como seu se se atrevesse. Tem pestanas longas e as pálpebras tremem, em pequenos espasmos de claridade. Sabe que sonha, quer saber com o quê. Num gesto de rebeldia ocupa o espaço vazio na cama, a seu lado. Entrelaça os dedos sobre a barriga e permanece inerte enquanto pinta a sua imagem bem no fundo da memória. A cores, a preto e branco, em tons de sépia e contra-luz. Os lábios, ligeiramente entreabertos, lembram-lhe uma tulipa ao amanhecer. Imagina pequenas gotas de orvalho cubrindo-lhe a cútis e quer beber dela, elixir de vida que tem ali, lado a lado. Quando tudo terminar vai respirar fundo e, mal sinta o pestanejar curioso, dir-lhe-á o quanto a ama. Assim, com a mesma serenidade com que a sente procurar o aconchego do seu corpo despido, vai beijar-lhe a boca de ameixa madura e sentir o sumo escorrer-lhe pelo queixo, em gargalhadas curiosas.

4 comentários:

Margarida disse...

(uma bic e umas folhas pautadas fazem bem a muita gente) e este texto fez-me ver um abismo qualquer, uma falta de saber de todas as histórias tão verde-esperança como esta por este país fora. enfim

marta. disse...

:) q texto aninha!

mariana disse...

não sei como consegues :o
tens um dom (: *

Sabor Adocicado* disse...

que bonito :D