domingo, 9 de maio de 2010

Aprendiz.

Se eu pudesse vestir-te-ia sempre de verde. Ou de branco. Ou até de cinzento, meu amor. Sabes porquê? Porque num verde mar és maior e mais bonito. Num branco serenidade encontro-te mais vivo e reflectido nos meus olhos. E o cinza nada tem a ver com o teu humor; esse é borbulhante, de gargalhadas doces. Se eu mandasse em alguma coisa pintar-te-ia sempre das minhas cores, ao mesmo tempo que te soprava as asas e te permitia descobrir as janelas abertas da alma. E então serias verdadeiramente livre. Saborearias a liberdade em modo palpável, real, superior a essa metáforazinha com que te convences a ti mesmo. Enjaulaste a cada copo bebido, a cada vontade embriagada e eu, cativeira do lado de cá, grito-te muda que te escapes daí. Estás vestido de preto e o luto cobre-te o olhar, outrora escorregadio cor-de-mel, e eu, chorosa, fico-me do lado de fora. Não é por medo que não te resgato, acredita em mim. É pedagogia, única e exclusivamente. Um dia eu mesma aprendi com esse erro e, num tempo não muito longínquo, fui obrigada a reaprender cada estratégia. Quem dos dois ganharia se te contasse como se faz? Sofro. Sofro de entranhas doridas mas não te posso estender a mão, desculpa-me. Não te posso relembrar aquilo que sei que sabes. Está escondido aí, num qualquer canto do coração que desististe de pintar de amarelo alegria, como a que ainda consigo vislumbrar nos sorrisos ténues, mal delineados. Olho para ti e lembras-me um gato, sabias? Malhado do arco-íris que um dia fiz explodir em ti, teimoso de um medo que ambos sabemos ter e só tu não admites. Caminhas na borda da piscina, fingindo não ser o teu maior pavor. Um dia a sorte acaba-se, meu querido.
Acredita em mim.

8 comentários:

Emily disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Emily disse...

magnificamente fantástico :D

D. R. disse...

Fogo... Grande texto.

E, ao mesmo tempo, triste.

mariana disse...

tocas-me*

Jokinh@ disse...

sei de um lugar, onde algures existem portas entre-abertas. As que nós fechamos com segurança dão a certeza da procura de novo caminho... As que os outros fecham poderemos ficar sempre à porta esperando que se abra... Quem fecha primeiro? Tanto faz! Só as fechadas certezas nos impelem para o sabor das doces recordações... as incertezas fazem-nos sonhar com utopias paralelas!

Margarida disse...

tu é que me despiste agora, acredita em mim. (e verde mar é a mim cor preferida)

*Ariel* disse...

Que texto incrível, mais uma vez. É o meu preferido, acho, agora. :)*

Patrícia Nunes disse...

Adorei o texto , está mesmo bonito :)