segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Selva.


Não. Não chegues de mansinho quando estou envolta em lençóis e em pensamentos que não me pertencem. Não te apoderes de mim quando estou exposta, fragilizada. Não aqui, não em sonhos. Vai-te e leva contigo o teu cheiro. Leva também o meu para que na manhã seguinte não me reconheça e possa começar uma história nova, limpa. Não jogues com as minhas fraquezas como se de brinquedos se tratassem. Dói-me ver-me aí, perceber-me aí, entre os dedos esguios que um dia me juraste meus. Não, não venhas. Não deites o teu corpo aqui, no vazio da cama, nem me puxes para ti. Não me aninhes, não me beijes, não me percorras o corpo como quem o sabe de cor. Não me faças despertar as vontades da carne quando preciso de mais. Entre sussuros sabes que me tens e é exactamente isso que tentas fazer. Não quero. Perco os cinco sentidos para ti, não posso deixar que me atravesses como uma corrente eléctrica, deixando-me em pele de galinha. Vou fechar-me para balanço por não te querer em mim. Não me mordisques, relembrando-me todos os calcanhares de Aquiles que me conheces. Já te esqueci e não te quero encontrar nos meus sonhos mais disparatados. Não entendes o grito do Ipiranga que dou em cada desejo emudecido? Não me ames na ponta dos dedos. Não me faças reconhecer que me enfeitiças com a ternura da pele e do corpo quente, que sempre quis e dei. E principalmente não me tomes como garantida. Sem que te dês conta tenho voado, todas as noites que não me prendes aqui, no amor ofegante e lânguido com que me marcas. Marcas essas que mostro, a cada manhã, como feridas de guerra em cicatrização. Guerra onde aprendi a dizer "não", por puro instinto de sobrevivência. É a lei do mais forte meu querido, ou ainda não tinhas percebido?

7 comentários:

Lady in red disse...

real, sentido, somos tantas(os) que amam e que dão por si enredados nos jogos instáveis de quem nos toma por garantidas(os)... e nada faz para além dos nos atar um cordel á volta do pé...
para que possamos andar mas nunca para longe...

Joana Almeida disse...

Tumbas!

Midnight Sun disse...

"Vai-te e leva contigo o teu cheiro." - para mim, uma das "piores" coisas que existe é a memória olfactiva.

Papagaio Mudo disse...

balance, mas não te feches...
solidão não cura assim.

Abraço,


Gustavo

Adriana Pinto disse...

O olfacto é o sentido que mais memórias no traz. E o cheiro 'deles' custa tanto inalar, quando sabemos que já não estão cá. Às vezes pensamos, porquê dizer não e depois lembramo-nos de todas aquelas sitações que nos fez crescer e aprender a dizer que não. Quando sabemos que a única coisa que tiraríamos dessa próxima história é a dor que nos percorre todos os musculos.

Rita disse...

ah leoa! e mais não digo! =P

Mg disse...

Como eu entendo esse texto! :O Está na minha hora de dizer não também para pessoas que não merecem um centímetro da minha paciência!