domingo, 26 de abril de 2009

Nobody puts baby in a corner.


Foi tomar banho, esperando que a água levasse toda a sujidade que lhe cobria o espírito. Viu o rodopio com que a água desaparecia e desligou. Sem saber como tinha encontrado o botão que procurava. Vagueou pela casa embrulhada numa toalha, com os cabelos molhados pelos ombros, soltos, sentido as gotas escorrerem como suspiros que se evaporam do interior. Olhou o creme e dispensou-o. Hoje não tinha paciência. Não queria tocar um corpo que não sentia como seu, mesmo com a vontade inerente de o recuperar. Vestiu uma t-shirt ao acaso, sem se importar com a aparência que lhe dava. Umas calças de ganga gastas e confortáveis, aquelas que ele não suportava. Um casaco porque sabia o vento que fazia, apesar de não se preocupar porque o que queria era que a alma lhe voasse. Olhou-se ao espelho, ainda com os cabelos revoltos de uma tempestade controlada e domou-os. Voltou a revolvê-los com o calor do secador, aquela boca larga de dragão enfurecido que a fazia abstrair-se dos ruídos do mundo. Solto? Trança? Com um gancho? Não, rabo de cavalo. Prendeu-o, domando-se naquele emaranhado de caracóis, ondulações e calmarias e sorriu. Aproximou-se e viu as pequenas rugas que já lhe marcavam o rosto jovem e tudo isto a deixou feliz. Tinha ali o mapa da sua curta vida. Faltava o brinco, o relógio, os óculos de sol e estava pronta. Sabia que para onde ia, a iriam compreender. Há casas onde somos mais que parte da mobília.

2 comentários:

Joana Almeida disse...

Na mouche.

Tão tu! Tão como eu gosto de ti!

E nesta casa que sou eu, mais do que parte da mobília, és parte do chão! =)*

Nunziuh disse...

Ainda bem que ela não se arranjou. Eu prefiro as meninas assim. :) Por alguma coisa sou da aldeia x)